<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' version='2.0'><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-7665191</atom:id><lastBuildDate>Sat, 21 Feb 2009 17:02:13 +0000</lastBuildDate><title>Fora de Bordo</title><description>Um espaço com margem de manobra, onde o tempo se quer reflectido. As molduras do quotidiano pela voz das palavras. </description><link>http://fora_de_bordo.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (fora_de_bordo)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>2</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-7665191.post-109122277312891177</guid><pubDate>Fri, 30 Jul 2004 21:00:00 +0000</pubDate><atom:updated>2004-07-31T15:53:02.606+01:00</atom:updated><title>De um deus chamado rio ou o tempo dos fundamentalismos em 7 cenas</title><description>&lt;p&gt;&lt;img src="http://www.brentatwater.com/OH%20M%20GOD%20OC%20WP.jpg" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;FADE IN:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. EXT./ FINAL DE UMA TARDE DE OUTONO – CAFÉ PARAÍSO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus, assobiando. Amassado pela inércia da tarde, decide-se pela criação. Fuma cigarrilha, escrevinha numa folha de papel pardo. Diletantemente, folheia o labirinto das notícias do jornal e tricoteia uma SMS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUPER – Vou tornar-me rio. Um rio que perpasse todas as cidades e muros. Em flor, enfim, toda a humanidade. Enviar. Número de telefone. A enviar mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEUS&lt;br /&gt;(sorrindo)&lt;br /&gt;Líquido, é o fim…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus fecha o jornal e ensovaca-o. Ergue-se lentamente. Afasta-se, subindo a calçada em direcção ao sol alaranjado de fim de tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUT TO:&lt;br /&gt;2. INT./ ANOITECER – QUARTO DE DEUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A janela está aberta. Torna-se fácil o câmbio de uma corrente de ar que faz sussurrar um espanta-espíritos. O quarto é animado por sombras que vão desaparecendo à medida que a luz do dia se extingue. Deus está nu, deitado no chão por cima de uma manta peruana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embalado pelo sussurrar do espanta-espíritos, Deus adormece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. EXT./ AMANHECER – RUA CORPO DE DEUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas folhas de parra bailam ao vento, em frente a um muro já rendido ao tempo, de tão degradado aspecto. No muro está afixada uma placa verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUPER – Rua Corpo de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um automóvel em andamento, vindo da esquerda.&lt;br /&gt;As duas folhas de parra bailam ao vento.&lt;br /&gt;Um automóvel em andamento, vindo da direita.&lt;br /&gt;O carro da esquerda acelera.&lt;br /&gt;O carro da direita acelera.&lt;br /&gt;As duas folhas de parra bailam. Ouve-se um estrondo.&lt;br /&gt;CUT TO:&lt;br /&gt;4. INT/. AMANHECER – QUARTO DE DEUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A portada da janela bate com a força do vento da manhã. Deus desperta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUT TO:&lt;br /&gt;A manta peruana ilustra o chão de madeira. O espanta-espíritos sussurra. Ouve-se a água do duche a correr e o ruído do rádio-despertador mal sintonizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUT TO:&lt;br /&gt;Deus está sentado numa cadeira de palha na varanda. Rói uma maçã vermelha. Sorri. Folheia um livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUPER – Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakov (em russo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pousa o livro e resgata o telemóvel. Escreve uma SMS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUPER – É hoje. O dia maior que os dias. Deus torna-se rio…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pega novamente no livro e folheia-o. Lê atentamente a epígrafe. Completa a SMS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SUPER – “Quem és tu, afinal? Sou parte daquela força que eternamente quer o mal e eternamente quer o bem” (Goethe, Fausto). Enviar. Número de telefone. A enviar mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUT TO:&lt;br /&gt;5. INT./ TARDE – CASA DE DEUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus coloca mochila negra às costas e sai de casa. Bate a porta e chama o elevador.&lt;br /&gt;CUT TO:&lt;br /&gt;6. EXT./ TARDE – CENTRO DA CIDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve-se uma voz que parece ecoar por toda a cidade. É a voz de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEUS&lt;br /&gt;É o fim trágico de um deus. O nascimento imparável de um rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUT TO:&lt;br /&gt;7. INT./ TARDE – CAFÉ PARAÍSO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mão sintoniza um rádio, passando por vários noticiários simultâneos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LOCUTOR/LOCUTORA&lt;br /&gt;Atentado em…&lt;br /&gt;Bombista suicida provoca 12 mortos e…&lt;br /&gt;A resposta armada já se fez ouvir…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FADE OUT&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7665191-109122277312891177?l=fora_de_bordo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://fora_de_bordo.blogspot.com/2004/07/de-um-deus-chamado-rio-ou-o-tempo-dos.html</link><author>noreply@blogger.com (fora_de_bordo)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>16</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-7665191.post-109019766926916906</guid><pubDate>Sun, 18 Jul 2004 23:59:00 +0000</pubDate><atom:updated>2004-07-19T01:41:09.270+01:00</atom:updated><title>O deus anoitecido de Mukavel</title><description>&lt;img src="http://www.reuelpoeta.blogger.com.br/por%20do%20sol.jpg" /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Ondulava Lusa, com seus pés de tamborzinho ritmado, por entre a noite cantada da selva. A aldeia de colmo silencioso pendurada no estalar da fogueira de lua e mar. Ao fundo os gambozinos e outros dissabores sonhados que tais. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Emolduradas no azul nocturno, as derradeiras ossadas do que se contava terem sido os botes de muita viúva trazida ao mundo. Dezenas de carcaças de madeira que o tempo soprou cascas de noz anoitecidas num desígnio quase arqueológico. E nessa peste de cheiro salgado por certo a pele se engalinhava pela quasi-presença de um novo olhar. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Lusa era ânsia soluçante. Atentara no esplendor da tarde passada: Mukavel chegara de bicicletar. Nesse instante, de corpo entornado em suor, pousou aquele deus embrulhado em lona mixuruca. Logo o assento de erva selvática e terra batida se viu convertido em templo ou ilha de admiração. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Mukavel, tornado Messias do embrulho, não desvendou logo os olhos da curiosidade. E pregou do alto do seu corpo de colibri esfomeado. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;- Dentro daquele saco trago novos olhos para toda a gente… &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;A aldeia tresandava a murmúrio. Mukavel, inesperado propagandista, retorquiu. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;- Quem gostar dos novos olhos, compra! Quem não gostar, cega! &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Assim animado, converteu palhota em escritório de peregrinação. Para experimentar os novos olhos Mukavel cobrava. Podia ser em moeda, galinha ou favor a prestar. Estratégia para valorizar o produto e agigantar a expectativa. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;À porta da palhota rentavelmente milagrosa engrossaram as gentes. Os carreiros transbordaram e os estômagos não almoçaram para ver com outros olhos. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Lusa desconfiava. Mukavel impusera o total sigilo – se é que pode existir o parcial – aos peregrinos pagadores. Forma esperta de não afastar a possível clientela. E assim Lusa – não pagadora – via proibir-se esse novo mundo do olhar. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Ao fim de tardias horas de consulta e de crédito, Mukavel decretou perante o fascínio generalizado. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;- Logo à noite, ESPECIALMENTE – fez questão de erguer o braço e a voz – há consulta para todos… GRATUITAMENTE… – empenho do mesmo jeito empolgado de quem já folgou o bolso – Quando o sol terminar, consulta para a gente… &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;A aldeia desunhou-se pela refeição antecipada. De modo algum, a falta à comunhão sob as estrelas e a noite cantada do mato. Assim se profetizou, assim se cumpriu. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Findo o sol, Mukavel descobriu para todos o novo deus. A noite de gente arqueou-se. A partir daí, proibiu-se a palavra e decretou-se o ronronar único da fogueira ante a sombra de Mukavel. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;A aldeia fez-se silêncio. O deus fez-se televisão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7665191-109019766926916906?l=fora_de_bordo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://fora_de_bordo.blogspot.com/2004/07/o-deus-anoitecido-de-mukavel.html</link><author>noreply@blogger.com (fora_de_bordo)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item></channel></rss>